sábado, setembro 25

Reflexão

Sentir o nosso coração ao mesmo tempo que o de alguém a quem damos um abraço faz-nos de tal maneira bem à saúde, traz-nos uma tal paz, que até existe uma forma de tratamento chamada Terapia do Abraço.
Um bom abraço ajuda-nos a sentir as muitas dimensões do amor: a facilidade para receber e dar, a sensibilidade para o sofrimento, a disponibilidade para a alegria de se divertir e a profundidade da ternura.
Abraçar alguém é como dizer-lhe: "Olha, aqui estou para o que quiseres, de coração aberto para ti". O que implica aceitar ser rejeitado. Mal interpretado. Correr esse risco.
No entanto, só se a atitude interior, o pano de fundo a partir do qual nos relacionamos com os outros, for de lhes estender os braços e de os tocar, poderemos descobrir o valor da partilha.
Não são só as pessoas solitárias, infelizes, inseguras, que precisam ser abraçadas. Abraçar bem dá-nos saúde. Mas não se trata de abraços sociais, de conveniência, em que duas pessoas se tocam apenas por fora – portanto não se tocam -, nem de abraços de dois amantes apaixonados que um ao outro se agarram.
São abraços que acontecem porque saem cá de dentro sem que os travemos. Como expressão de um amor incondicional que nos habita – e de que não temos medo, porque o olhamos como algo que verdadeiramente nos liberta.
A intimidade que um abraço sincero oferece é a da compreensão. Da atenção. Da solidariedade. Da amizade que existe para lá da exaltação dos sentidos, apenas por ter a consistência daquilo que brota do fundo de nós mesmos e que se mantém quer faça sol quer chova.
Abraços são uma espécie de foguetes capazes de fazer despertar moribundos ou fazer levantar da cama preguiçosos. Explosões de vida. Há quem goste de os dar para reafirmar um vínculo de amizade ou qualquer outro sentimento. E são uma das melhores festas gratuitas a que toda a gente tem acesso. São abraços do fundo do coração, frequentes entre duas pessoas que, por nada pedirem uma à outra, de cada vez que se encontram recebem sempre muito – e apenas por isso são levadas a celebrá-lo.
Quando um coração se abre para outro coração, há quase sempre uma qualquer maravilha que pode acontecer. Ou, quanto mais não seja, uma sensação de paz possível, neste mundo cheio de guerras em que vivemos.

A água do mundo


Vou correndo, como se isso me fizesse escapar dos pingos da chuva que se inicia. Menos tempo na chuva, pode ser ilusório, mas tenho a impressão de que ficarei menos molhado, de que chegarei menos ensopado. Com o canto do olho observo o senhor que com a mangueira termina de limpar a calçada, mesmo sabendo que a chuva há de modificar todo o cenário nos próximos instantes. Ou vai trazer de volta toda a sujeira que ele está tirando ou vai lavar outra vez o que ele acabou de lavar.

quinta-feira, setembro 2

Anunciação

Toca essa música de seda , frouxa e trêmula , que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar .
do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro , com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento .
Eo vento bate nas cordas , e estremecem as velas opacas , e a água derrete um brilho fino , quem em si mesmo logo se perde .
Toca essa música de seda , entre areias e nuvens e espumas.
Os remos pararão no meio da onda , entre os peixes suspensos ; e as cordas partidas andarão pelos ares dançando á toa .
Cessára essa música de sombra , que apenas indica valores de ar .
Não haverá mais nossa vida , talvez não haja nem pó que fomos .
E a memória de tudo desmanchará suas dunas desertas , e em navios novos homens eternos navegarão .

Antologia Poética !

                                                          NOITE
Úmido gosto de terra , cheiro de pedra lavada
-tempo inseguro do tempo ! -
sombra do flanco da serra , nua e fria , sem mais nada .

Brilho de areias pisadas , sabor de folhas mordidas ,
-lábio da voz sem ventura! -
suspiro das madrugadas , sem coisas acontecidas .

A noite abria a frescura dos campos todos molhados ,
-sozinha , com o seu perfume ! -
preparando a flor mais pura com ares de todos os lados .

Bem que a vida estava quieta .
Mas passava o pensamento ...
-de onde vinha aquela música ? -
E era uma nuvem repleta , entre as estrelas eo vento .

Viagem !

                                                             MOTIVO

Eu canto porque o instante existe  , e a minha vida está completa . 
Não sou alegre nem sou triste : Sou Poeta .

Irmão das coisas fugidas , não sinto gozo nem tormento .
Atravesso noites e dias no vento . 

Se desmorono ou se edifico , se permaneço ou me desfaço 
-não sei , não sei . Não sei se fico ou passo .

Sei que canto . E a canção é tudo . 
Tem sangue eterno a asa ritmada . 
E um dia sei que estarei mudo :
- mais nada .

quarta-feira, setembro 1

Antologia Poética !

NOTA Á 1ª EDIÇÃO  .

Há muita maneira de fazer-se uma antologia e não se sabe qual seja a melhor .
Pode -se usar um critério estético , ou didático , ou outros conforme o objetivo que se tenha em vista .
Para o leitor , a melhor antologia é a que ele mesmo organiza , ao eleger , na obra completa de um escritor , aquilo que mais lhe agrada , embora , com o passar do tempo , se possa ver como o gosto pessoal varia , e o que nos agrada numa época já não nos agrada igualmente noutra , tão volúveis somos em nossas preferências e tão diferentes são as perspectivas , no caminho da nossa evolução .
Esta antologia , a primeira que publico - e que representa uma realização tão importante da Editora do Autor  , que assim atende á divulgação de livros já esgotados ou de difícil acesso - , para enquadrar -se nas medidas adequadas de uma edição desta natureza , tem de reduzir ao essencial todos os livros que representa .
No meu caso , a seleção mais difiicl de fazer parece - me a do Romanceiro da  Inconfidência , dadas suas proporçoes originais ea extensão de cada poema .
Neste caso , foi completamente impossivel seguir a sugestão de leitores e amigos , e mesmo as minhas próprias sugestões ....
Em compensação , e a exemplo do que foi feito nas antologias anteriores , figuram aqui alguns poemas inéditos , inclusive do livro Solombra , atualmente no prelo .
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                                                                                                      .         CECÍLIA MEIRELES  - 1963